CÂNCER, o tumor e não o signo.

Acho estranho, no mínimo, o medo que a palavra câncer provoca nas pessoas. Ter medo das palavras é algo incrível para mim, pois gosto muito delas, indistintamente. Acho que muita gente pensa que doença ruim só acontece para aqueles que pronunciam “a palavra”. Quanta superstição! Acho que muitos de nós ainda vivem dentro das cavernas e não encaram a realidade, não querem ver a luz do Sol.

Nesse assunto eu concordo com o nosso Vice-Presidente, José Alencar, que sempre conta tudo o que se passa com ele – trata de câncer há muitos anos – e vive pregando que devemos falar cada vez mais sobre esse assunto, para que todos aprendam que essa doença faz parte da vida. É preciso deixar o preconceito de lado. Mais ciência e menos assombração, minha gente!cancerdia

Se a pessoa é discreta e não quer falar sobre sua própria doença – seja ela câncer ou não – é compreensível. Faz parte da personalidade dessa pessoa. Meu próprio marido, o Vicente, por exemplo, detestava conversar sobre o mal que o afligia. Mas era mais por pudor e um pouco talvez por negação, penso.

Outro dia li uma notícia de um maestro que vive em Santos/SP, André Infanti, de 71 anos e que há 23 anos trata de câncer e não gosta de falar sobre isso. Não contou de sua doença para quase ninguém e diz que não toca nesse assunto porque não quer causar sofrimento aos outros e também porque gosta mesmo é de alegria.

Um tumor maligno como o câncer, atinge a todos não escolhendo pessoa , nem idade, nem religião ou credo político. Ricos ou pobres, brancos e negros. Poderíamos até dizer – com cinismo – que é uma doença democrática… Embora atinja crianças e jovens, sabe-se que é uma doença mais freqüente em velhos, até mesmo porque temos menos resistência.

Acontece que sem informação estaremos condenados à ignorância. Por isso partilho da opinião de que devemos falar sobre câncer sem medo de ser infeliz. Essa doença tem um viés genético e, portanto, dentro de uma família é muito importante que todos saibam se há alguém que sofre ou sofreu desse mal, para que os demais possam tomar providências necessárias para a prevenção, cuidando-se em dobro.

O câncer não é único, pois há de diversos tipos: carcinoma, sarcoma, linfoma, melanoma, leucemia etc e atinge qualquer órgão do corpo humano. É importantíssimo o diagnóstico correto e precoce, pois hoje há muitas oportunidades de cura ou controle. Tomara cada vez mais o SUS – Sistema Único de Saúde receba investimentos governamentais e torne-se melhor. Que tenha capacidade para atender, com bastante qualidade, a todos os brasileiros que necessitem de ações de assistência à saúde.

Sem medoUm bom livro que li sobre esse assunto foi “Sem medo de Saber”, escrito pelo brasileiro Ilan Gorin, lançado em 2007 pela Editora Sextante. Após a morte de seu pai por câncer, o autor teve a idéia de conscientizar mais pessoas sobre essa doença que não conhece idade, raça ou classe social. Fez muita pesquisa e também ouviu muita gente. O livro traz valiosos depoimentos de pacientes brasileiros famosos e seus familiares.

Bem, mas por que escrevo tudo isto? É muito simples: também tive um câncer, fui operada há 4 anos (comemorei no dia 9 deste mês de janeiro de 2010!) e faço controle rigoroso. Não deixo a peteca cair! A doutora manda fazer exames eu não retruco, apenas obedeço, com paciência de Jó. Nunca escondo de ninguém esse acontecimento e não me aborreço de falar sobre ele. Como sou paulistana e me trato no Hospital do Câncer/Fundação A.C.Camargo (a que me refiro como Clube da Luta!) deixo aqui a dica do site/sítio, onde se pode encontrar informações valiosas: http://www.hcanc.org.br/index.php?page=12

No ano passado refletindo sobre minha vida de lá pra cá, escrevi , num desabafo, o que segue:

O TEMPO

(Inês do Amaral Büschel, escrito aos 62, em abril de 2009)

Em plena primavera,

no início do mês de dezembro de 2005,

numa tarde normal,

fazendo consulta ofaltmológica de rotina,

eu soube que fora tocada pela Morte.

Descobri que num breve esbarrão,

através de um pequenino melanoma de coróide,

ela, a Morte, sorrateiramente,

roubara-me a visão do olho esquerdo…

A partir daquele frio instante,

eu que já valorizava o tempo e corria atrás dele,

passei a atribuir-lhe peso de ouro pois,

afinal, meu prazo de validade vencera…

Mas, haveria prorrogação!

Logo em seguida, em maio de 2006,

a Morte esteve em minha casa e,

desta vez utilizando-se de um infarto,

levou-me o marido que eu amava.

Dali por diante, em respeito à minha própria dor,

decidi não desperdiçar mais um minuto sequer,

com as mesquinharias que encontro pelo caminho.

Até mesmo porque, pouco tempo depois,

em abril de 2008,

diante de tanta dor, meu coração perdeu o compasso,

entregou os pontos e teve uma pane elétrica!

Foi preciso repará-lo no hospital, com uma ablação.

Mais uma vez meu prazo foi prorrogado!

Oxalá, cada vez mais, exista gente que se dedique à ciência,

e que todos possam dela se beneficiar.

Serei eternamente grata aos meus familiares e amigos

que me deram força suficiente para enfrentar tudo,

bem como aos médicos, enfermeiros e bioquímicos

que não param de estudar.

Nem é necessário dizer que, após essa “hecatombe”,

o ritmo frenético de minha vida de hiperativa,

mudou de rumo, obrigatoriamente.

A ansiedade teve de ser estancada.

Se eu quiser viver um bocadinho mais,

terei de ter mais calma e suavidade.

Passei, então, a dar um peso muito maior

às atitudes e gestos gentis e delicados

praticados por inúmeras pessoas.

Por tudo isso, gostaria muitíssimo de,

doravante, ser poupada de aborrecimentos inúteis.

Já não tenho tempo a perder, de verdade!

Troquei a peneira que usava para separar o joio do trigo,

por uma outra bem mais fininha.

Nesta, agora, só passa trigo de altíssima qualidade.

Decididamente, na vida cotidiana, fez-se claro para mim que,

em razão do tempo escasso e da finitude da vida,

algumas virtudes humanas tais como bom humor, gentileza, paciência, alegria, gratidão, tolerância, generosidade e compaixão

sobrepõem-se a todas as outras.

É isso. Acabou-se a história e morreu a vitória. Quem quiser que conte outra.

Inês do Amaral Büschel, em 28 de janeiro de 2010.

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