BOILESEN

 Há mais de 120 anos, em 1886, quando na Inglaterra vitoriana se estabelecia que o homossexualismo masculino era considerado crime (Emenda Labouchère), o escritor escocês radicado em Londres, Robert Louis Stevenson, escreveu e publicou o romance “O médico e o monstro”, abordando as questões da dualidade do comportamento humano. Ele criou os personagens Dr. Jekyll e Mr. Hyde que até hoje são muito conhecidos pelo mundo todo.

O livro é facilmente encontrado em livrarias, sebos e bibliotecas. E sobre esse romance já houve alguns filmes, sendo o mais novo deles “O segredo de Mary Reilly”, dirigido por Stephen Frears e estrelado por Julia Roberts, John Malkovich e Glen Close, lançado 1996 e que se pode encontrar em DVD.

Por outro lado, aqui no Brasil, lá pelos idos de 1930, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema a que deu o nome de “Anedota Búlgara”, cujo texto é o seguinte:

Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. Quando lhe disseram que também se caçavam borboletas e andorinhas, ficou muito espantado e achou uma barbaridade. “

Com essa necessária introdução que me veio à lembrança, eu gostaria de comentar o seguinte. No dia 15 de janeiro p.passado fui ao cinema Reserva Cultural localizado na Av. Paulista, para assistir ao documentário nacional “Cidadão Boilesen”, dirigido pelo brasileiro nascido em Nilópolis/RJ mas radicado em New York, Chaim Litewski.

Fiquei muito triste e ao mesmo tempo muito contente. Explico-me melhor: (a) triste por recordar-me, mais uma vez, de toda a horrível história do período da ditadura militar no Brasil (1964-1985) e que é retratada nesse filme; mas, ao mesmo tempo, fiquei (b) contente por saber que alguém – o Chaim – teve a coragem e a brilhante idéia de documentar uma pequena parte do que se passou naquele período histórico entre os empresários brasileiros – notadamente os paulistas – que financiaram as ações da OBAN – Operação Bandeirantes.

Essa truculenta operação prendeu, torturou e matou cidadãos brasileiros, a maioria deles jovens, a mando de um complô formado por militares das Forças Armadas, policiais civis e militares, banqueiros, fazendeiros, empresários brasileiros e estrangeiros. Entre estes últimos predominavam os interesses dos estadunidenses. Juntos, deram um golpe de Estado. Tinham o beneplácido da alta cúpula da Igreja Católica e de grande parte da classe média brasileira.

Esse grupo inventou a mentira de que havia na época uma ameaça comunista no Brasil. Semelhante ao que faria a dupla Bush/Rumsfeld anos mais tarde para invadir ao Iraque, com a historinha das armas de destruição em massa.

A bem da verdade, o que a esse grupo não agradava mesmo era ver a plena democracia que se fortalecia entre nós. Destruíram tudo o que puderam e espalharam o terror no território nacional.

Embora sejam muitos os personagens macabros dessa triste passagem da história do Brasil, o filme está focado na pessoa de Henning Albert Boilesen, cidadão nascido na Dinamarca mas que ainda jovem mudou-se para cá, formou uma família e naturalizou-se brasileiro. Tornou-se empresário e foi diretor da empresa Ultragaz sediada na cidade de São Paulo.

Boilesen era louro de olhos azuis, pessoa de fino trato, dedicado aos amigos e hábil nos negócios (tal qual um Dr. Jekyll). Mas também era o homem cínico que arrecadava dinheiro entre seus pares para custear as ações policiais, e tinha seu lado sádico, pois consta que freqüentava o ambiente policial onde se realizavam torturas (tal qual um Mr. Hyde). Fazia questão de assistir às sessões de aplicação de choques elétricos e “pau-de- arara” em homens e mulheres presos. Por certo também não caçava borboletas tal qual o czar naturalista do poeta Drummond.

É por essas e mais outras que uma significativa parcela de nossas Forças Armadas e também uma parte do empresariado nacional, lutarão com “unhas e dentes” para não abrir os arquivos de documentos referentes a esse período obscuro e cruel de nossa história recente.

Pena é saber que existem muitos brasileiros de boa fé que acreditam num futuro sem conhecer seu passado. Ouço, vez ou outra, a frase “O que passou, passou. Foram todos anistiados.” Fico perplexa diante de tanta passividade.

Torturadores não podem ser incluídos na Lei da Anistia. Se isso acontecer muitos policiais continuarão a achar que podem tudo com os presos, torturá-los, inclusive. Se houver anistia aos que torturaram pessoas presas nós estaremos perdidos para sempre. Não chegaremos ao fim do nosso lento processo civilizatório.

Se puder, não deixe de assistir ao filme “Cidadão Boilesen”. É muito importante para todos nós sabermos o que se passou debaixo de nossos olhos, e que a mídia não noticiou – ou porque fazia parte do esquema ou porque sofria censura imposta pelos militares.

Inês do Amaral Buschel, em 19 de janeiro de 2010.

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