“VÉVE-SE”

A comunicação humana – ou a falta dela – sempre me despertou muito a atenção durante toda minha vida. Admiro a incrível capacidade que algumas pessoas ou mesmo povos tem de se fazer entender pelos outros. A uns essa habilidade eficiente parece inata, mas há outros que se distinguem pela total incomunicabilidade.

A linguagem, ao que tudo indica, é o que nos faz humanos. Usando palavras, expressões faciais, gestos, riso ou choro, enfim, de alguma maneira nós podemos transmitir ao interlocutor o nosso sentimento ou pensamento. Em contrapartida o outro poderá não nos compreender de maneira correta e daí é que surgirão os desentendimentos que podem gerar brigas, ofensas e até mesmo assassinatos.

Por isso é que desde criança temos de aprender a nos comunicar corretamente com os outros, sejam eles da própria família ou da comunidade onde se vive. Mas para isso será preciso uma boa educação. Se não a obtivermos em casa ou na escola ou na sociedade, certamente enfrentaremos enormes dificuldades no decorrer da vida. Infelizmente, mesmo tendo dinheiro, obter boa educação não é nada fácil. E para os desafortunadamente pobres será sempre mais difícil ainda.

Nós brasileiros em geral falamos a mesma língua portuguesa, mas de maneiras distintas. Não só as diferentes línguas indígenas e africanas nos influenciaram profundamente, mas também as línguas faladas por outros povos vindos de toda s as partes do mundo e que por aqui se instalaram. Os próprios portugueses que nos colonizaram vieram de diversas aldeias e não havia uniformidade na língua falada por eles.

Todavia, como bem diz o dito popular, para um bom entendedor, meia palavra basta. Penso que devemos desenvolver uma predisposição para compreender os outros e também para se fazer compreender. Falhar muitas vezes é possível, haja vista que errar é humano, mas ao menos devemos tentar acertar. Se não conseguirmos bom êxito numa comunicação, melhor será retirar-se gentilmente do ambiente onde se está ou ali permanecer em silêncio. Sobretudo será preciso que se evite desentendimentos tipo bate-boca ou luta corpórea. Usar armas nem pensar! Nas brigas de trânsito, então, melhor ser surdo!

Precisamos, acima de tudo, estar atentos para as questões da insanidade mental, pois há distúrbios mentais sérios que não estão estampados na face das pessoas e, via de regra, neles há o prejuízo na comunicação e no entendimento humano.

Escrevo isto após refletir sobre os tristes episódios ocorridos neste mês de dezembro de 2009: na cidade de SP, um vigia de uma padaria localizada num bairro de classe média, após bate-boca com um cliente – ambos emocionalmente alterados – esfaqueou-o causando-lhe a morte; lá na China um cidadão britânico – morador de rua que sofria de distúrbio bipolar – foi processado e condenado a pena de morte por ingressar naquele país transportando (o famoso mula) grande quantidade de entorpecentes, tendo sido executado sem mais delongas. E temos ainda o lamentável confronto entre surinameses e brasileiros em Albina/Suriname, local onde certamente ninguém fala a mesma língua e  a incomunicabilidade acabou proporcionando a vitória do ódio xenófobo.

Essa Babel/Gaia onde nascemos e vivemos está lotada de gente e tornou-se muito perigosa. Apesar disso tudo, como se diz no sertão paulista, véve-se.

Inês do Amaral Büschel, em 30 de dezembro de 2009.

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