O Aleijadinho

No texto anterior que eu escrevi neste blog, refiro-me às minhas impressões sobre uma recente viagem que fiz a Ouro Preto. Nele acabei me concentrando mais na história de Tiradentes. Mas houve outro personagem histórico que me chamou muito a atenção naquela cidade. Trata-se do Aleijadinho, cujo nome real consta ser Antonio Francisco Lisboa, falecido em 18 de novembro de 1814, quando contava com 76 anos de idade. Não há consenso sobre a data de seu nascimento.

A biografia mais conhecida desse artista mineiro foi escrita no ano de 1848, por Rodrigo José Ferreira Bretas que colheu dados junto a pessoas que o haviam conhecido pessoalmente. (http://www.descubraminas.com.br/DestinosTuristicos/hpg_pagina.asp?id_pagina=2044&id_pgiSuper=)e (http://www.vivercidades.org.br/publique_222/web/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1236&sid=21).

Sobre ele eu também tinha apenas as informações obtidas na escola, jornais, revistas e cinema. Lá em Ouro Preto, minha filha e eu fomos visitar quase todas igrejas e museus que ostentam obras atribuídas a sua autoria. Depois fomos até a cidade de Congonhas do Campo e vimos a beleza que são as esculturas em pedra sabão dos doze apóstolos frente à Basílica Senhor Bom Jesus de Matosinhos, bem como todas as imagens em madeira que ele esculpiu representando os Passos da Paixão de Cristo. Enfim, são tantas, mas tantas obras, que quando estávamos em Ouro Preto visitando o Museu Aleijadinho – que fica bem atrás da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias – entreguei os pontos! Senti-me uma barata de tão humilhada… Pensei em como uma pessoa pode produzir tantas coisas belas e eu não conseguir criar nadinha de nada…nem mesmo desenhar eu sei… (http://www.museualeijadinho.com.br/?op=conteudo&id=37&menuId=89).

Lembrei-me, então, naquela hora de desalento, de um samba muito legal de autoria do paulista Wandi Doratiotto, ao qual ele deu o nome de Dostoiévski, e cuja letra é a seguinte: “Se Dostoiévski viveu lá na Sibéria / E não se congelou / Entre facínoras, dementes, assassinos / E gigolôs / Se Dostoiévski vivendo na cadeia / A tudo observou / Recordações da Casa dos Mortos / Ele ali gerou / Por que que eu, vivendo livre em Ipanema, / Nada produzi, xii / Será que o Sol em demasia em minha testa / Foi queimando o meu QI, que é isso…/ É muito chato, gente / Me sinto um empecilho / Eu não plantei uma árvore / Não escrevi um livro, não tive um filho.”

Convenci-me então de que há mais gente que sente o mesmo que eu sinto. Ufa! Acho que de fato há gênios da criação, cuja criatividade lhes vem à mente em qualquer circunstância, seja boa ou má.

Para variar, quando retornamos ao hotel, peguei o livro sobre Tiradentes para continuar a leitura e ali encontrei o seguinte comentário do autor Oiliam José: há uma pesquisadora de História da PUCAMP, chamada Isolde H.B. Venturelli, que lançou um livro em 1983 com o nome de “ Profetas ou Conjurados?”, onde ela defende a tese de que o Aleijadinho ao esculpir os Profetas, na verdade estava fazendo uma representação dos Conjurados! (http://congonhas.tripod.com/polemica.html)

Teria então o astuto escultor dado um olé nas autoridades políticas e eclesiásticas da época?

Não acho descabida essa idéia, uma vez que o Aleijadinho foi contemporâneo dos Inconfidentes e há relatos de que ele até era amigo pessoal de Cláudio Manoel da Costa e sofreu muito com a prisão e morte desse amigo.

Bem, mas o pior estava por vir. Uma certa feita, há algum tempo atrás, ouvi alguém dizer que o Aleijadinho não existiu e que se tratava apenas de um mito! Não havia levado a sério esse comentário e o atribui à teoria conspiratória que anda aí pelas cabeças de quem nem mesmo acredita que Elvis Presley morreu, e que acha que tudo não passa de pura armação.

Uma das razões para eu refutar essa idéia funesta era o fato de eu já ter assistido dois filmes sobre Aleijadinho: um documentário sobre sua obra, datado de 1978, com roteiro de Lúcio Costa e direção de Joaquim Pedro de Andrade (este documentário está contido no DVD do filme Os Inconfidentes); e outro, contando sua própria vida “O Aleijadinho – Paixão, Glória e Suplício”, realizado por Geraldo Santos Pereira, datado de 2000, também em DVD.

Mas qual não foi minha surpresa quando ao retornar para São Paulo, procurando saber qual a origem do boato sobre a não existência da pessoa do Aleijadinho, acabei encontrando a razão de tudo. É que uma professora de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto, chamada Guiomar de Grammont, baseada em longa pesquisa, não chega a negar a existência da pessoa do Aleijadinho, porém defendeu uma tese perante a USP onde demonstra que, não é possível que o Aleijadinho tenha produzido sozinho todas aquelas obras a ele atribuídas! Que para tanto teria de ter vivido muitas vidas! Essa tese está publicada no livro “Aleijadinho e o aeroplano”, lançado em 2008 pela editora Civilização Brasileira.( http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090104/not_imp302138,0.php) e (http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3694&bd=1&pg=1). Depois que li isso recuperei minha autoestima que estava bem machucada…

Como saberei eu se tudo que se diz é verdade ou mentira? Assim como se passa com a figura de Tiradentes, a figura de Aleijadinho ao longo do tempo vem sendo manipulada – para o bem e para o mal – por pessoas inescrupulosas, autoridades governamentais, meios de comunicação social etc. E nós, o povo, sendo ludibriado. As crianças indefesas acabam recebendo lições equivocadas nas escolas, pois seus professores também foram vítimas de má educação quando eram alunos. Constrói-se, então, um perpétuo círculo perverso de desinformação.

Bom, mas para mim fica a impressão de que o Aleijadinho existiu realmente e era de fato um gênio na escultura em pedra sabão ou outros materiais. Penso que deve ter criado uma legião de alunos seguidores – como uma verdadeira escola da época – dentre os quais muitos dos escravos que trabalhavam com ele. Todas aquelas infinitas obras de arte daquela região mineira devem ter o toque do mestre, embora possam, perfeitamente, não terem sido esculpidas individualmente só por suas mãos.

E aqui termina a história do passeio de uma semana em Ouro Preto. Valeu demais como podem ver. Vi com meus próprios olhos o resultado das brigas antigas entre as ordens religiosas católicas: igrejas construídas uma bem em frente da outra! Devia ser divertida a conquista de novos fiéis em busca de maior audiência… Adorei a comida, a paisagem, as histórias, as pedras preciosas, a lentidão do tempo, o sotaque típico (certim em vez de certo; beijim em vez de beijinhos), a arquitetura e o Museu a céu aberto como lá se diz. Gostei até das longas e cansativas ladeiras que me serviram como uma academia de ginástica ao ar livre e impediram-me de engordar…

Inês do Amaral Buschel, em 15 de dezembro de 2009.

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