Ouro Preto, MG, Tiradentes, ou a retomada

Depois de um longo e tenebroso inverno, por insistência de alguns amigos (dois ou três apenas…) e de minha filha que reclamaram do meu abandono deste blog, tentarei tomar impulso e retomar meus escritos. Tenho andado muito reflexiva sobre esse mundo cheio de incertezas e confesso ter perdido um pouco do pique de escrever. Mas vamos lá! Ânimo! Só por hoje!

Recentemente, no mês de novembro p. passado, na companhia de minha filha Beatriz, estive visitando a cidade de Ouro Preto pela primeira vez na vida e por uma semana inteira. Gostei muitíssimo e recomendo essa visita a todos. Durante o período em que lá fiquei matutei bastante sobre como teria sido a vida cotidiana das pessoas que viviam naquele lugar chamado Vila Rica, entre o século 17 e 18. Num tempo com muito ouro e muitos escravos e noutro tempo, sem tanto ouro e com poucos escravos.

Visitei a Casa dos Contos (http://www.esaf.fazenda.gov.br/casa-dos-contos/index2.htm) e estando lá, parei no cômodo onde esteve preso e foi encontrado morto o poeta Cláudio Manuel da Costa. O que realmente se passou ali lá pelos idos de 1789? Ele suicidou-se ou foi “suicidado” como nosso contemporâneo jornalista Wladimir Herzog? Ah…quantas perguntas sem respostas ainda há na história do Brasil de hoje e de ontem…

Naquela minha semana de passeio – subindo e descendo ladeiras! – comi muito feijão tropeiro, couve refogada, doce de leite, queijo, um pouco de torresminho… e …cachaça da boa!!! Ah! Como a vida é boa nessas horas de prazer! Também vi muitas e lindas pedras preciosas e aprendi como é fácil para um exímio artesão enganar os turistas. No Museu de Ciência da Escola de Minas (http://www.museu.em.ufop.br/museu/) há um mostruário de algumas formas de se enganar o freguês. Até do cabo plástico colorido de uma simples escova de dentes, um artesão é capaz de produzir uma reluzente “pedra preciosa!”

Para descansar das subidas e descidas de intermináveis morros com piso de pedras, durante algumas tardes e noites – fora o dia em que houve um novo “apagão” por lá – eu me dediquei à leitura. Havia ido a uma livraria e lá comprara dois livros: Tiradentes, de Oiliam José, Editora Itatiaia/Edusp, 1985, bem como outro denominado História da Inconfidência de Minas Gerais, de Augusto de Lima Jr, Editora Itatiaia, 1996.

Nessa rápida leitura aprendi um pouco mais sobre a Conjuração Mineira e fiquei surpresa em saber que nosso historiador cearense Capistrano de Abreu desdenhou desse fato histórico!

Oh Deus! Óh! Céus! Que saberei eu então da história do Brasil? Por vezes sinto-me profundamente ignorante, muito embora tenha cursado boas escolas. Será que os professores não me ensinaram direito ou fui eu que não estudei o suficiente? Por essas e outras é que posso imaginar o que o Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) quis dizer quando em 1967 escreveu a letra do Samba do Crioulo Doido:

Foi em Diamantina / onde nasceu Jotacá / que a Princesa Leopoldina arresorveu se casá / mas Chica da Silva tinha outros pretendentes / e obrigou a princesa a se casar com Tiradentes / lá ia lá ia lá ia / o bode que deu vou te contá. / Joaquim José, que também é da Silva Xavié / queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro Segundo./ Das estradas de Minas seguiu pra São Paulo / falou com Anchieta / o vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro e acabou com a falseta / da união deles dois, ficou resolvida a questão / e foi proclamada a escravidão. / Assim se conta essa história / que é dos dois a maior glória / a Leopoldina virou trem / e Dom Pedro é uma estação também / ôôôôôô / o trem tá atrasado ou já passou! .

De fato, nós – os brasileiros que aprendemos história do Brasil nos bancos escolares – temos uma idéia muito fragmentada e descontinuada dos fatos históricos. E, ainda por cima, vem um historiador importante e nega a existência da Inconfidência!?! É para qualquer um enlouquecer…

Parece-me, entretanto, que o historiador Capistrano em 1907 escreveu sua obra Capítulos da História Colonial, focalizando-se apenas naqueles movimentos insurretos onde houvera efetivamente a participação do povo local e, convenhamos, o povo em massa não participou das reuniões preparatórias da Conjuração Mineira. Talvez tenha sido por isso que ele fez questão de ignorá-la.

Todavia, a não participação popular não tira o mérito daqueles poucos homens – haveriam mulheres naquelas reuniões? – que se reuniram várias vezes em Vila Rica, com o firme propósito de declarar a independência da colônia do jugo do Reino de Portugal. Pretendiam eles – além de livrar-se dos tributos, é claro! – construir nestas terras uma república semelhante àquela que acabara de ser fundada nas antigas colônias inglesas da América do Norte. Essas notícias corriam mundo.

Segundo registros históricos, Joaquim José, o Tiradentes, costumava dizer o seguinte: “ Se todos quisessem, se poderia fazer no Brasil uma grande nação.” Essa expressão continua válida até hoje, passados mais de 200 anos de sua morte! Após essas leituras cheguei à conclusão de que Tiradentes foi e continua sendo uma pessoa muito injustiçada. Uns o endeusam e outros o renegam.

Os inconfidentes letrados que detinham parcela de poder político da época, incluindo-se entre eles os poetas, parece que desprezavam Tiradentes por ser ele um alferes de poucas letras – isto não te lembra algo atual? – e ele acabou sendo traído não só por Joaquim Silvério dos Reis, mas pela maioria que durante o processo judicial fez questão de negar a própria participação na idéia de independência do Brasil, abandonando-o sozinho diante dos poderosos que compunham o poder judiciário da época. Ora, se eram adultos letrados como se deixaram levar por um iletrado audacioso?

Penso que Tiradentes provavelmente foi um homem comum do povo, caboclo que trabalhava para sustentar-se e que acabou amealhando algumas posses. Ficou órfão na infância, era alfabetizado porém não tinha diploma de curso superior – não fora estudar em Coimbra! – e ao que tudo indica era também uma pessoa generosa, pois consta que tinha muita habilidade em acudir aos que sofriam de dor nos dentes. Teve lá seus amores, deixou uma filha mas nunca se casou oficialmente, apesar de ser católico. Isto era muito comum na moral da época e perdura até hoje, como bem sabemos.

 

Foi processado e condenado à forca na cidade do Rio de Janeiro. Seu corpo foi violado horrivelmente, tendo sido esquartejado a mando do Reino de Portugal. As partes de seu corpo foram expostas em Vila Rica e em algumas aldeias daquela região mineira, e não deixaram vestígios. Não há restos mortais desse valente brasileiro no Panteão dos Inconfidentes, localizado dentro do Museu da Inconfidência na cidade de Ouro Preto, (http://www.revistamuseu.com.br/emfoco/emfoco.asp?id=2704). Esta parte da nossa história é incontestável. Há provas suficientes sobre o processo da Devassa. Apenas a trajetória verdadeira da Inconfidência Mineira é que é pouco conhecida e por isso mesmo tem sido bastante manipulada por “gregos e troianos” ao longo de nossa história.

Os pintores trataram de retratá-lo como um mártir – que ele realmente foi! – mas com uma imagem semelhante a de Jesus Cristo. Penso que não agiram bem esses artistas, pois desfiguraram a aparência física desse importante personagem da história do Brasil e agora jamais saberemos como ele era de verdade.

Acho que só Tiradentes acreditava na possibilidade da colônia transformar-se num país livre e republicano naquela oportunidade. Talvez tenha sido mesmo uma atitude insana sua. Mas valeu muito. Seu sofrimento não foi em vão. Ao menos para mim. Ele merece minha eterna admiração e gratidão. Apenas trinta anos após sua morte foi, finalmente, declarada nossa independência do Reino de Portugal. Mas ainda como Império e não República. Esta surge cem anos depois da Inconfidência Mineira.

E a bandeira do estado de Minas Gerais é a mesma que Tiradentes idealizara para o Brasil republicano. Foi dele a idéia do triângulo ao centro, tendo se inspirado na Santíssima Trindade.

Se você quiser saber mais um pouco dessa história sem grandes leituras, recomendo que assista ao inteligente filme Os Inconfidentes, realizado em 1972 pelo cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade em co-produção com a RAI (italiana). Há poucos anos foi distribuído no mercado o DVD com cópia restaurada digitalmente. O filme não é dirigido ao entretenimento do grande público e tem linguagem bastante complexa.

Inês do Amaral Büschel, em 11 de dezembro de 2009.

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