Nossos poetas da canção popular

 

Tenho um profundo amor pelas palavras. Por isso respeito imensamente os poetas, principalmente quando falam de sentimentos com os quais me identifico.

Durante minha vida profissional, tanto no exercício da advocacia quanto na promotoria de justiça paulista, atendi pessoas muito humildes que tinham problemas enormes na vida. Eu ficava arrasada quando nada podia fazer para ajudá-las. Então, ao menos concedia meu tempo e oferecia meus ouvidos para escutar seus desabafos. Algumas ficavam aliviadas só com essa oportunidade de ter alguém que as ouvisse, sem precisar pagar algo. Todas, sem exceção, saiam dizendo “Deus lhe pague” ou “Obrigado. Desculpe alguma coisa”.

Nessas ocasiões de tanta aflição, lembrava-me de letras escritas por poetas. Sempre encontrava uma canção popular que me ajudava a aquietar o coração, como estas duas letras: uma composição de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e outra de Eduardo Gudin:

O Dia de Amanhã

(de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)

Não é preciso me agradecer

pelo bem que eu fiz a você

Não sei o meu dia de amanhã

também posso precisar

de alguém me ajudar

Eu sempre fiz por quem

Pandeiro e Viola 1975

Pandeiro e Viola 1975

merece

Quem é bom de coração

Deus não esquece

É triste ver os outros

sofrendo

E a gente querendo

ajudar a quem é infeliz

Por mim essa gente sorria

Se eu pudesse

Faria, todo mundo feliz.

 

 Velho Ateu

(de Eduardo Gudin)

Um velho ateu

Um bêbado cantor, poeta

Na madrugada

cantava essa canção-seresta

Leila Pinheiro e Eduardo Gudin 2007

Leila Pinheiro e Eduardo Gudin 2007

Se eu fosse deus

A vida bem que melhorava

Se eu fosse deus

Daria aos que não têm nada

E toda janela fechava

Pros versos que aquele poeta cantava

Talvez por medo das palavras

De um velho de mãos desarmadas

 

Houve uma vez, na comarca de Suzano, nos idos de 1985, que ocorreu algo do qual nunca me esqueci. Entrou em minha sala buscando ajuda uma senhora bastante idosa. Enquanto lhe atendia, tentava identificar o cheiro que vinha de seus cabelos grisalhos. Eu conhecia aquele odor, nem bom nem ruim, apenas estranho, mas não consegui desvendar o mistério. Resolvi com ela os assuntos tratados, ela se despediu agradecendo-me e eu continuei intrigada.

Já era noite, na volta para casa, quando de repente lembrei-me: o cheiro que vinha dos cabelos daquela velha senhora era de fumaça de carvão! Igual àquele cheiro que impregnava os nossos cabelos na infância, quando acendíamos a boca do fogão à carvão lá de casa. Com um pouco de jornal embaixo dos tocos de carvão, acendíamos com fósforo e abanávamos com a tampa da panela até o fogo surgir brilhante! Depois era só colocar a panela para cozinhar nossa comida.

Essas lembranças da minha infância sem dinheiro e a pobreza da vida de grande parte do povo brasileiro, é que me levam a apoiar a política pública da renda mínima universal. Aquela mesma do sonho do senador Suplicy, que se tornou lei federal nº 10.835, de 08 de janeiro de 2004 e se refere à renda básica de cidadania. Fico pasma ao ler e ouvir cidadãos de bem falarem cobras e lagartos do programa federal Bolsa Família, que é uma primeira etapa do cumprimento da lei 10.835. Essas pessoas não sabem o que dizem. Não sabem o que é não ter dinheiro sequer para tomar ônibus ou trem e ir até o Fórum pedir ajuda ou levar um familiar doente até o Pronto Socorro mais próximo.

Oxalá um dia o Brasil seja povoado por uma maioria de cidadãos com consciência social, e que possamos nos desenvolver como nação, numa grande rede social de âmbito coletivo, sem distinção de classes sociais. Como uma verdadeira república democrática.

 Inês do Amaral Büschel, 15 de agosto de 2009.

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