Tenho medo da natureza

O sapo e o escorpião

O sapo e o escorpião

Tem gente que teme fantasmas, almas do outro mundo, saci pererê, assombração, satanás, coisa ruim, alma penada e tantos outros fenômenos sobrenaturais.

 Mas eu, eu tenho medo da natureza. Essa mesma natureza que é venerada por ecologistas e ambientalistas. Tenho medo do vento, das águas, do fogo, do calor, e do frio nem se fale! Não tenho vontade alguma de conhecer a neve. Ainda agora recebemos a triste notícia da morte por hipotermia de um brasileiro lá nas montanhas geladas do Maláui. Senti um frio na espinha só em imaginar as circunstâncias de sua morte.

Bem, mas por que estou escrevendo isto? É porque há poucos dias, durante uma noite inteira caiu uma forte tempestade aqui na cidade de São Paulo, onde moro. Acordei assustada com um repentino clarão em meu quarto. Estava sozinha e me perguntei amedrontada: quem acendeu as luzes? Em segundos percebi que não era ninguém não, havia sido um relâmpago pois logo em seguida ouvi um estrondoso trovão. Cobri minha cabeça com as cobertas e pensei em como alguém pode amar a natureza… Eu tenho medo dela! Me vinha à mente o tsunami lá na Indonésia há alguns anos, o Katrina em New Orleans, os “dilúvios” recentes em Santa Catarina e em Salvador.

Que fazer? De quê me adianta ter medo? Todos vamos morrer um dia e não temos a menor idéia de quando isso ocorrerá. Então por que temer a morte se é um fato da vida? Sei lá porquê. Talvez seja porque ela faça parte da própria natureza… da qual eu tenho tanto medo! A verdade é que lutamos e sonhamos com a sobrevivência num ato instintivo, como se fosse em legítima defesa da vida.

Após aquela tempestade, pela manhã, como tudo voltara ao normal – embora continuasse chovendo mas bem baixinho – eu comecei a me perguntar quais seriam meus outros medos. Lembrei-me logo de que sempre tive medo de gente ruim, dessas que se lambuzam e riem quando praticam maldades. Gente viva e não gente morta. Também tenho pavor de ditadura, seja da esquerda, da direita, civil ou militar. É, mais isto já não faz parte da natureza, são coisas criadas pela vontade dos seres humanos. Ah! Mas os seres humanos fazem parte da natureza! E me lembrar disso às vezes me provoca medo.

Agora, por exemplo, lembrei-me da fábula atribuída a Esopo que conta a história do sapo e do escorpião. Vou contá-la com minhas palavras: houve um incêndio na floresta e todos os animais fugiram para o rio, o escorpião e o sapo,  inclusive. Como o escorpião não sabia nadar até a outra margem, pediu ao sapo que o deixasse subir nas suas costas. O sapo negou-lhe a carona dizendo que isso era uma armadilha, pois sabia que ele, o escorpião, costumava matar outros bichos com o próprio veneno vindo de suas entranhas. Daí o escorpião argumentou, dizendo que não era louco e que se o matasse ele também afundaria e morreria no rio, pois não sabia nadar. O sapo achou razoável a explicação e permitiu que o escorpião subisse em suas costas. Saíram nadando. No meio do caminho o sapo sentiu uma ferroada e começou a perder as forças. Ficou estupefato e teve tempo de dizer ao escorpião: você está louco? Vamos morrer os dois! Ao que o escorpião lhe respondeu: desculpe-me, mas é da minha natureza…

Por essas e outras é que tenho medo da natureza.

 

Inês do Amaral  Buschel, 09 de agosto de 2009.

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