A DOR HUMANA

O grito, de Munch

O grito, de Munch

Se há algo que me ocupa a mente constantemente – fica como stand by – é o enigma da dor humana. No momento, esse assunto me veio à mente em razão da queda do avião no Irã, seguida da queda de outro avião na África, que se seguiu à queda de outro avião no oceano Atlântico na costa brasileira. Tudo em pouco tempo.

Os meios de comunicação espalharam imagens dos fatos e o que se vê sempre é a mesma reação dos amigos e familiares: o horror da realidade está estampado em suas faces! A desolação está nos abraços trocados entre pessoas que se conhecem. Podem ser iranianos, africanos, norte-americanos, franceses, brasileiros, alemães, japoneses, não importa, a dor é sempre a mesma.

Fico comovida sempre. Consigo imaginar a imensidão da dor daquelas pessoas. Parece-me, toda vez, devastadora. Como um punhal cravado no peito. Esse sentimento do mundo, parafraseando o poeta Drummond, trago comigo desde a tenra infância. Na adolescência, quando tomei contato com a miséria social brasileira fiquei perplexa ao ouvir pessoas escolarizadas e bem colocadas em nossa sociedade, proferirem opiniões a respeito das mortes de crianças desnutridas, quase sempre nordestinas. Essas pessoas diziam que os pais daquelas crianças mortas não sentiam dor nenhuma, pois logo nasceriam outras crianças. Isso me revoltava e ainda revolta-me. O desprezo pela dor alheia é aviltante.

Haveria, então, dores diferentes em classes sociais distintas? A dor humana é suscetível à classe social? Penso que as manifestações de pesar podem ser distintas em face da cultura local, mas a dor humana, notadamente frente à morte de pessoa querida, é sempre a mesma. Claro, a menos que haja alguma patologia desviante.

O quadro “O grito” do artista norueguês Edvard Munch traduz bem o sentimento de horror da dor humana. Para mim, ele conseguiu transmitir a expressão de dor profunda. Isso em 1893. Que terá vivido esse pintor que o possa ter inspirado tanto?

Há pouco li uma entrevista de nosso neurocientista Miguel Nicolelis, onde ele diz que o amor entre duas pessoas (filial, fraternal ou romântico) talvez esteja diretamente ligado à assimilação, pelo cérebro, do corpo do outro como parte do nosso, ou seja, como parte de nossa representação corporal. O cérebro realizaria essa operação mediante sinais olfativos, táteis, visuais etc. Por isso, talvez, a dor da perda do amor da outra pessoa – pela morte, p.exemplo – seja tão intensa.

Por fim, a dor humana não só é sentida igualmente pelas pessoas de qualquer parte do planeta – independentemente da classe social – como também dói fisicamente em cada um de nós. Por isso não agüentamos e choramos, ainda que muitos o façam em silêncio. São muitas as dores humanas. Como dizia o nosso escritor Guimarães Rosa: “viver é coisa muito perigosa.” Daí, concluo, é indispensável o respeito à dignidade da pessoa humana.

Inês do Amaral Büschel, 19 de julho de 2009.

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