MANAUS, ou Manaós (Capítulo II)

 

Encontro das águas

Como você já pode ter concluído após a leitura do texto anterior, eu fui muito feliz em Manaus. Apesar do calor e da umidade excessiva do ar – mas para quem já morou no Rio de Janeiro 40 graus – os 30 graus de Manaus foram poucos. Ali nós fomos muito bem tratadas por todos na cidade e recebemos boas informações e dicas dos artesãos, balconistas de lojas e também dos taxistas. Pareceu-me que o tempo passa mais lentamente no Amazonas e as pessoas são mais calmas, menos estressadas. Todos muito gentis. Gostei da terra onde nasceu nosso festejado escritor Milton Hatoum! http://www.miltonhatoum.com.br/

E também conhecemos o banzeiro (preguiça provocada pelo balanço do barco navegando sobre as ondas do rio), pois fizemos o passeio de barco pelo Rio Negro, para conhecer a beleza que é o “Encontro das Águas”, onde o Rio Negro encontra o Rio Solimões e formam (ou continuam) o majestoso rio Amazonas. E não é que as suas águas não se misturam mesmo! É incrível! As águas do Negro são da cor marrom muito escuro e as do Solimões (Amazonas) são barrentas e bem mais claras.

Os rios se encontram e suas águas seguem paralelas, tal como água e óleo, por causa das diferenças de temperatura, densidade e velocidades de suas respectivas águas. Esse fenômeno aquático me fez lembrar daquele pedaço de doce de leite que vem com um lado mais escuro, contendo chocolate. Muito legal! O “Encontro da Águas” acaba de ser, provisoriamente, tombado pelo IPHan.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/825773-iphan-tomba-encontro-das-aguas-dos-rios-negro-e-solimoes-no-amazonas.shtml

Mesmo estando atenta a higiene das mãos e dos alimentos ingeridos, bem como só tomando água mineral e evitando comer alimentos típicos pelas ruas, não consegui passar ilesa pela diarréia básica, uma situação bem desagradável. Fui atendida no hotel por um médico que me explicou sobre a “diarréia do viajante”, fenômeno que eu desconhecia, e que acontece com a maioria dos turistas. Como já disse no texto anterior, minha ignorância é generalizada! Ao que entendi, parece que as bactérias naturais que trazemos conosco no próprio corpo, muitas vezes são incompatíveis com as bactérias do local visitado e daí sai uma batalha, cujo resultado pode ser um agudo distúrbio gastro-intestinal ou mesmo uma infecção intestinal.

Fiquei mais tranqüila quando o médico me alertou que o organismo de muitas pessoas reage rápido e elas se recuperam sem necessidade de muitos remédios. Tive essa sorte, pois em 24 horas, só tomando Floratil de 8 em 8 horas, bebendo apenas água e comendo torradas e maça sem casca, recuperei minha saúde e aprendi mais essa lição de vida. http://www.anvisa.gov.br/paf/viajantes/diarreia.htm

cestaria amazônica

Fomos, minha filha e eu, conhecer a Central de Artesanato Branco e Silva, que é um local onde se pode encontrar o que há de melhor em arte popular amazônica. Ali compramos vários colares, anéis e outras lembrancinhas. Já tínhamos conhecido no Centro da cidade uma praça chamada Terreiro Aranha, onde também há várias barracas de artesãos vendendo adereços e arte indígena. Vale a pena conhecê-la.

http://portalamazonia.globo.com/pscript/amazoniadeaaz/artigoAZ.php?idAz=01

Não tivemos tempo de fazer outros grandes passeios tal como ir conhecer as cachoeiras localizadas no município vizinho de Presidente Figueiredo (que não se refere ao general, mas sim a um outro João Batista que foi o 1º Presidente da Província do Amazonas). Todos asseguram que vale a pena ir até esse local, pois é muito bonito. Paciência. Ficou para uma próxima vez.

Fizemos, entretanto, um belo passeio pelo Bosque da Ciência, localizado nas dependências do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (federal) e lá conhecemos o negro peixe-boi e outros bichos tais como a ariranha, os jacarés, os macacos, araras etc, bem como o famoso e feioso sapo cururu, tão cantado por nossas crianças para horror das feministas (eu, inclusive !): “ Sapo Cururu/ Na beira do rio/ Quando o sapo canta, oh! Maninha/ é porque tem frio/ A mulher do sapo/ Deve estar lá dentro/ fazendo rendinha, oh maninha/ Para o casamento.” http://bosque.inpa.gov.br/principal.htm

Aliás, falando em feminismo, constatei com muita tristeza, que também em Manaus a violência doméstica contra a mulher é assunto cotidiano nas páginas policiais. A Lei Maria da Penha também não é bem aplicada naquela Comarca.

Bem, também ingressamos numa parte da mata à margem direita do Rio Negro, onde há uma APA (área de preservação ambiental) que já tem uma trilha para levar turistas até a um lago onde vicejam as famosas “vitórias régias”, as quais, conforme fiquei sabendo, agora não se chamam mais assim, mas simplesmente “vitórias amazônicas”.

Minha curiosidade de paulistana prendia-se, principalmente, em conhecer essa planta majestosa cuja lembrança trago na memória desde a escola primária, e também queria ver o encontro das águas e o centenário Teatro Amazonas construído no coração da selva amazônica, com arquitetura européia. Consegui realizar meu desejo e fiquei satisfeita. O calor da cidade eu combati indo até a boa sorveteria Glacial e refrescando-me com sorvetes de tucumã, cupuaçu ou tapioca! Uma delícia!

Não aprecio muito o sabor do açaí por isso não comi produtos feitos dessa fruta. Também, para decepção de muitos, não me encanto com camarões e por isso não experimentei o tacacá, que é um prato quente típico da região. Trata-se de um caldo grosso de mandioca (tucupi e tapioca), contendo alhos, pimenta a gosto, camarões e uma verdura (jambu ou chicória), tudo cozido. Toma-se numa cuia e cata-se os camarões e a verdura com um palito comprido feito de madeira. É uma comida servida nas ruas pelas “tacacazeiras”. Interessante numa região de tanto calor as pessoas se alimentarem com esse prato também tão quente! Vai entender a razão! Ou desrazão.

Tacacá

Eu preferi comer bastante peixe, tais como pirarucu e tambaqui assados, que são deliciosos acompanhados de arroz ou farofa. Infelizmente, esses são peixes que custam muito caro e não estão ao alcance de toda população. O povo manauara, todavia, adora comer farofa amarela acompanhada de um peixe frito chamado jaraqui, cujo preço é mais acessível. Esse peixe pareceu-me “parente” do lambari. E deve ser muito bom! Há ali um dito popular que diz: Quem come jaraqui não sai mais daqui!

Quando visito uma cidade sempre gosto de conhecer suas livrarias, pois adoro freqüentá-las. Não vi muitas delas em Manaus, infelizmente. Mas encontrei uma bem legal que pertence a Editora Valer. Comprei algumas obras de autores locais, pois sei que seria muito difícil encontrá-los em São Paulo, pois sequer saberia seus nomes para poder buscá-los. http://www.ecenter.com.br/valer/html/

O Brasil é um país imenso e que possui milhares de bons autores e compositores, artistas enfim, mas que ainda não conseguiram divulgar suas obras pela imensidão do território nacional. Permanecem no anonimato. A Internet tem facilitado bastante essa difusão, mas estamos ainda muito longe do ideal, pois para uma eficiente publicidade é preciso ter muito dinheiro, o maldito e bendito capital…

Assim que me decidi a viajar para conhecer a cidade de Manaus, muitas pessoas do meu relacionamento me disseram: “Mas o que você irá fazer lá?”. Tive a nítida impressão de que para muitos brasileiros, conhecer quaisquer outras cidades que não sejam Paris ou Nova York não faz qualquer sentido. Talvez pensem que fora dessas cidades não haja vida inteligente. Acontece que na juventude já conheci essas ricas e interessantes cidades e não tenho interesse algum em nelas retornar. Não tenho mais tempo para isso.

Hoje, ao menos para mim, conhecer o Brasil é muito, mas muito mais interessante. É uma terra linda, tropical, é minha e não preciso de passaporte. E é o que farei sempre que tiver uma oportunidade e reunir coragem para subir novamente num avião e enfrentar o aborrecimento inevitável dos aeroportos. Aliás, ao ver tantos estrangeiros visitando Manaus eu me perguntei: Por que tão poucos paulistas se interessam por vir até aqui? Será que é porque é muito caro?

Conhecer uma cidade com quase 2 milhões de habitantes e que se localiza no coração da floresta amazônica, onde você só chega facilmente se for de avião ou barco, é pouca coisa? Pois para mim foi bom demais. Passear e conhecer seu país sempre fará bem para qualquer um de nós. E, por outro lado, convenhamos: não é preciso ser alemão para ter curiosidade em conhecer a região amazônica, certo?

Esqueci-me de contar algo maravilhoso. Enquanto estávamos ali, tivemos a oportunidade de assistir a uma apresentação musical no Teatro Amazonas, o que para mim e minha filha era algo sonhado. Assistimos a Orquestra de Violões do Amazonas (OVAM) dirigida pelo simpático maestro Davi Nunes da Silva, que se exibia numa noite de domingo: http://culturadoam.blogspot.com/2010/11/ovam-amigos-domingo-as-19h-no-teatro.html.

Não há palavras que traduzam a emoção que senti ao ouvir música naquele teatro! Clicando aqui você poderá ter uma idéia dessa orquestra: http://www.youtube.com/watch?v=aNpT3MeythA

Voltei mais rica de Manaus. Mesmo gastando meu rico dinheirinho. Adorei conhecer a cidade, muito embora ela esteja classificada como a segunda com maior custo de vida no Brasil. Só perde para São Paulo. Mesmo assim valeria ter ficado um pouquinho mais por ali. Mas, confesso que já estava com saudades de minha casa em terras paulistanas.

Gosto muito de viver na cidade de São Paulo – cidade onde nasci –  mesmo com todos seus defeitos: “Eu não troco o meu ranchinho, amarradinho de cipó, pruma casa na cidade nem que seja bangaló...”. Se bem que no meu caso, sou eu quem não troca a casa na cidade por outra no sertão, nem que seja um bangalô!

Inês do Amaral Büschel, em 4 de dezembro de 2010.

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